O Guga foi não verbal até os sete anos e hoje tem uma comunicação funcional. Esse assunto tem um lugar especial para mim: como ajudar um filho que pode estar sentindo dor, mas não consegue explicar onde ou como?
Quero que você leve uma ideia desde o começo: uma mudança de comportamento merece ser compreendida. A pergunta “será que está doendo alguma coisa?” precisa ter espaço no cuidado.
Quem não reclama pode estar com dor?
Sim. A ausência de fala, choro ou pedido de ajuda não exclui dor. Algumas crianças ficam agitadas; outras ficam mais quietas, deixam de brincar ou evitam movimentos. A expressão pode ser diferente daquela que esperamos.
Por isso, compare seu filho com ele mesmo: como costuma dormir, comer, andar, brincar e aceitar cuidados? Uma diferença em relação ao habitual pode ser mais informativa que uma lista genérica de sintomas.
Quais mudanças observar?
Preste atenção ao conjunto: caretas novas, corpo encolhido ou rígido, proteção de uma região, recusa de alimentos, sono interrompido, cansaço incomum ou resistência repentina à higiene. Agitação e autoagressão também podem acompanhar desconforto, mas não identificam a causa sozinhas.
Um exemplo: recusar alimentos que exigem mastigação pode justificar avaliação da boca e dos dentes. Chorar ao fazer xixi pede investigação urinária. Evitar sentar no vaso pode ter relação com evacuação dolorosa. São pistas para a consulta, não diagnósticos feitos em casa.
O que olhar no intestino?
Observe frequência, consistência e esforço para evacuar. Cocô em bolinhas, fezes muito grandes, escapes na roupa ou medo de ir ao banheiro merecem atenção. Mesmo quem evacua diariamente pode estar constipado.
Dor abdominal pode afetar o apetite, o sono e a disponibilidade para atividades. Investigar e tratar o problema intestinal é cuidar da saúde da criança. Não precisamos atribuir tudo ao autismo para reconhecer que ela está sofrendo.
Como ajudar meu filho a mostrar onde dói?
Em momentos tranquilos, apresente um desenho do corpo, fotos ou símbolos de “dor”, “barriga”, “boca” e “banheiro”. Demonstre o uso junto com palavras simples. O fonoaudiólogo pode adaptar esses recursos de Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA).
Dê tempo para responder e aceite apontar, gesticular ou vocalizar. Evite repetir perguntas até obter um “sim”. Se a criança ainda não consegue usar os símbolos, isso não significa que esteja sem dor.
Existe uma escala para quem não fala?
Profissionais podem usar escalas observacionais, como a r-FLACC, que considera expressão facial, pernas, atividade, choro e possibilidade de consolo. As informações da família ajudam a identificar manifestações particulares da criança.
Essas escalas organizam a avaliação; não localizam a doença nem substituem o exame clínico. Pergunte à equipe como registrar os sinais que fazem sentido para seu filho.
O que levar para a consulta?
Anote quando a mudança começou, quanto dura, o que estava acontecendo e o que piora ou alivia. Inclua evacuações, alimentação, sono, febre e alterações de medicamentos. Leve a lista do que ele usa, inclusive suplementos.
Em vez de apenas “está muito irritado”, tente descrever: “há três noites acorda chorando, passou a recusar comida e está evacuando com esforço”. Essa informação ajuda o profissional a decidir o que examinar. Você não precisa chegar com a causa descoberta.
Quando procurar atendimento rapidamente?
Procure urgência diante de dor forte ou persistente, barriga muito distendida com vômitos, vômito verde, sangue em quantidade nas fezes, prostração importante ou recusa de líquidos com pouca urina. Dificuldade para respirar ou perda de consciência exige ajuda imediata; acione o SAMU, 192.
Não espere preencher um diário se a criança parece muito doente. Evite testar medicamentos ou suplementos para tentar descobrir a causa.
E a investigação metabólica?
História, exame físico e sintomas orientam a necessidade de exames. Alterações nutricionais ou metabólicas podem merecer investigação em situações específicas, mas uma crise isolada não comprova inflamação ou deficiência. Cuidar integralmente inclui investigar hipóteses sem perder problemas comuns e tratáveis.
O que quero dizer a você, mãe?
Sua observação tem valor. Você não precisa acertar tudo sozinha: pode construir esse cuidado com profissionais que escutem sua família. Aliviar uma dor pode devolver conforto e espaço para aprender, brincar e conviver. Para continuarmos juntas, me acompanhe no Instagram: @ingrid.up.
