Sou mãe do Gustavo, que tem autismo com necessidade de suporte nível 3. Por isso, quando falo desse assunto, penso nas necessidades que existem por trás do número: comunicação, cuidado e apoio na vida diária.
Os níveis de suporte no autismo descrevem a intensidade de apoio necessária em dois campos: comunicação e interação social; e comportamentos restritos ou repetitivos, incluindo a dificuldade com mudanças. Eles ajudam a organizar o cuidado, mas não resumem quem a pessoa é.
O que significa nível 1 de suporte?
Nível 1 significa que a pessoa necessita de suporte. Pode haver dificuldades para iniciar ou sustentar interações, lidar com mudanças e organizar atividades, ainda que algumas habilidades pareçam bem desenvolvidas.
Uma criança que conversa bastante pode precisar de ajuda para participar de uma brincadeira com outras crianças. Falar não elimina automaticamente as dificuldades sociais. E a expressão “leve” não deve fazer a família ou a escola desconsiderarem as necessidades dela.
O que significa nível 2 de suporte?
Nível 2 significa necessidade de suporte substancial. As dificuldades de comunicação social são mais marcantes, e a inflexibilidade ou os comportamentos repetitivos podem interferir de maneira importante na rotina.
A pessoa pode precisar de mediação frequente para interagir, compreender situações e atravessar mudanças de atividade. A avaliação deve transformar essa descrição em apoios concretos, adequados àquela criança e aos ambientes em que vive.
O que significa nível 3 de suporte?
Nível 3 significa necessidade de suporte muito substancial. Há dificuldades intensas de comunicação social e/ou grande interferência da rigidez e dos comportamentos repetitivos. O acompanhamento precisa considerar as barreiras que limitam a participação e o bem-estar.
Algumas pessoas nesse grupo utilizam pouca ou nenhuma fala. Ainda assim, precisam de oportunidades para se comunicar, fazer escolhas e expressar desconforto. A comunicação aumentativa e alternativa, a CAA, pode incluir gestos, figuras e dispositivos, conforme avaliação.
Como mãe, faço questão de lembrar: reconhecer uma necessidade elevada de ajuda também é defender que essa ajuda exista.
O nível mede a inteligência ou prevê o futuro?
Não. Linguagem e funcionamento intelectual são avaliados separadamente. O número também não define sozinho o que a criança poderá aprender ou a autonomia que terá no futuro.
Comunicação social e padrões restritos ou repetitivos devem ser considerados separadamente: uma pessoa pode apresentar necessidades diferentes nesses dois campos. Além disso, a avaliação precisa olhar para habilidades práticas e condições associadas.
Por isso, vale perguntar na consulta: “Em quais situações meu filho precisa de ajuda? Qual apoio facilita a vida dele hoje?”. Essas respostas são mais úteis para a rotina do que o número sozinho.
O nível de suporte pode mudar?
As necessidades podem variar com o tempo e entre contextos. Desenvolvimento, demandas do ambiente e apoios disponíveis influenciam o funcionamento. Uma criança pode participar melhor em um espaço previsível e encontrar mais dificuldade em outro cheio de ruído e mudanças.
Mudanças duradouras merecem reavaliação profissional. Uma crise isolada não permite concluir que houve mudança de nível. E o cuidado não deve virar uma corrida para “baixar o número”: conforto, comunicação e participação são objetivos importantes em qualquer nível.
E se meu filho estiver muito mais irritado?
Não atribua automaticamente uma mudança importante ao nível de suporte. Sono, dor, intestino, alimentação, medicamentos e ambiente merecem entrar na conversa com a equipe.
Investigar condições associadas é parte do cuidado integral. Uma criança com dificuldade para contar o que sente também precisa ter seu desconforto levado a sério. Ao mesmo tempo, uma mudança de comportamento, sozinha, não comprova inflamação ou alteração metabólica.
O que eu gostaria que toda família lembrasse?
Seu filho merece apoio proporcional às necessidades dele e oportunidades para desenvolver suas habilidades. Precisar de muita ajuda não elimina possibilidades de aprendizado, vínculo e qualidade de vida.
Esse é o olhar que quero compartilhar com você: reconhecer as dificuldades e continuar procurando caminhos de cuidado. Me acompanhe no Instagram, @ingrid.up, para seguirmos essa conversa de mãe para mãe.
