O Guga andou com 8 meses. A parte motora parecia preservada, mas ele não respondia pelo nome, não olhava nos olhos e não dava função aos brinquedos. Quando eu chamava, não vinha; quando ouvia o desenho favorito, vinha na hora. Por isso, quero te lembrar: andar cedo não exclui autismo.
Por onde começar a observar?
Abra a Caderneta da Criança, aquela em que registramos as vacinas. Ela também acompanha marcos motores, de linguagem e interação. Leve dúvidas ao pediatra: um sinal isolado não fecha diagnóstico, e nenhuma lista substitui a avaliação.
De 0 a 12 meses: como são as trocas?
Observe sorrisos compartilhados, interesse por rostos, balbucios e gestos. Pouca resposta ao nome perto dos 9 meses e poucos gestos, como dar tchau, aos 12 merecem atenção. Nos primeiros meses, os sinais podem ser sutis; choro ou agitação sozinhos são inespecíficos.
Sinais de autismo em bebês de 0 a 12 meses →
De 1 a 2 anos: ele compartilha descobertas?
Repare se mostra objetos, imita e aponta para compartilhar interesses, especialmente perto dos 18 meses. Aos 2 anos, não combinar duas palavras com sentido merece avaliação. Observar repetidamente partes dos brinquedos, com poucas trocas sociais, também pode chamar atenção.
Sinais de autismo de 1 a 2 anos →
De 3 a 5 anos: como ele brinca e se comunica?
Observe dificuldade para participar de brincadeiras, pouca variedade no faz de conta, falas repetidas e sofrimento intenso com mudanças. Falar bastante ou ser carinhoso não exclui autismo. A ecolalia, repetição de falas, também pode ter função comunicativa.
Sinais de autismo de 3 a 5 anos →
De 6 a 11 anos: o que aparece na escola?
Dificuldades persistentes nas conversas, amizades e mudanças de rotina podem ficar mais evidentes. Interesses muito intensos e sobrecarga sensorial também merecem atenção. Peça exemplos à escola, sem interpretar dificuldade social como falta de afeto.
Sinais de autismo de 6 a 11 anos →
De 12 a 17 anos: ainda pode surgir uma suspeita?
Sim. Algumas diferenças são reconhecidas quando as exigências aumentam. A avaliação recupera a história desde a infância. Uma mudança súbita de comportamento não deve ser atribuída automaticamente ao autismo.
Sinais de autismo de 12 a 17 anos →
Sons, gostos e texturas incomodam demais?
Tapar os ouvidos, sofrer com etiquetas ou rejeitar alimentos por sabor, cheiro e textura pode indicar hipersensibilidade. Também pode haver pouca reação ou busca intensa por estímulos. Essas diferenças não são exclusivas do TEA; não force contato visual ou exposição dolorosa.
Por que observar o cocô e a alimentação?
Anote frequência, consistência, dor e esforço para evacuar. Constipação, diarreia persistente e seletividade alimentar merecem cuidado, inclusive pela possibilidade de deficiências nutricionais. Dor pode aparecer como irritação ou dificuldade para dormir.
Pesquisas investigam relações entre microbiota, metabolismo e inflamação no autismo. São caminhos promissores, mas o cocô não diagnostica TEA, disbiose ou neuroinflamação. A investigação nutricional e metabólica deve seguir os sinais clínicos.
Ele parece não ouvir: quais exames ajudam?
A aparente “audição seletiva”, como aconteceu com o Guga, merece avaliação. Reagir ao desenho não comprova audição normal. O profissional pode indicar audiometria, emissões otoacústicas e BERA/PEATE, que avalia respostas da via auditiva. Os exames são escolhidos conforme idade e colaboração.
Investigar causas físicas é parte inicial do cuidado, em paralelo à avaliação do desenvolvimento, sem atrasar o apoio.
É preciso investigar epilepsia, X frágil e encefalite?
Discuta a investigação genética, incluindo X frágil, com o especialista. Epilepsia exige investigação quando há suspeita de crises; EEG não é obrigatório para todos. Perda rápida de habilidades, confusão ou convulsões exige avaliação urgente, podendo levantar suspeita de encefalite autoimune. Ela não é rastreada rotineiramente em toda criança autista.
Outras condições podem coexistir ou confundir?
TDAH, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, e TOC, transtorno obsessivo-compulsivo, podem coexistir. TOD, transtorno opositor desafiador, exige distinguir oposição de dor, sobrecarga ou dificuldade de comunicação.
TEL (transtorno específico de linguagem) é uma nomenclatura antiga. O TDL (transtorno do desenvolvimento da linguagem) integra o diagnóstico diferencial; no TEA, pode haver transtorno de linguagem associado. TPS significa transtorno do processamento sensorial, cuja classificação independente não é consensual.
E o excesso de telas?
Estudos associam uso excessivo ou problemático a dificuldades de linguagem, aprendizagem e regulação emocional. Isso não comprova que telas causem autismo. Relatos de melhora após reduzi-las não demonstram, sozinhos, “falso diagnóstico”. Reduza o excesso e amplie brincadeiras e interação, mantendo a avaliação.
Qual é o próximo passo?
Procure o pediatra ou a UBS com a caderneta e suas observações. Qualquer perda de habilidades merece avaliação. Há caminhos de cuidado: você não precisa percorrê-los sozinha. Me acompanhe no Instagram: @ingrid.up.
Pesquisa sobre microbiota e metabolismo (2023).
Estudo sobre telas e desenvolvimento socioemocional (2024).
