Uma criança pode andar, subir no sofá e descobrir como abrir tudo, mas ainda ter dificuldade para compartilhar o que sente ou percebe. Foi essa diferença entre áreas do desenvolvimento que a história do Guga me ensinou a observar.
Aqui, vamos olhar do primeiro aniversário até antes dos 3 anos. A ideia é te ajudar a levar exemplos à consulta, sem transformar uma lista em diagnóstico.
Ele aponta para pedir ou para compartilhar?
Imagine duas cenas: seu filho aponta para o biscoito porque quer comer; depois aponta para um cachorro e procura sua reação, como quem diz “olha aquilo!”. Na segunda, ele está compartilhando atenção e interesse.
Essa troca, chamada atenção compartilhada, também aparece quando traz um brinquedo para mostrar ou acompanha algo que você aponta. Perto dos 18 meses, pouca iniciativa para mostrar coisas interessantes merece avaliação, principalmente junto de outras dificuldades de interação.
Pegar sua mão e levá-la até a geladeira pode ser uma forma de pedir. Observe se essa é quase a única estratégia e se faltam gestos, sons e outras trocas; acolha a comunicação enquanto busca apoio.
Quantas palavras importam — e o que vem além delas?
A linguagem deve ser acompanhada na Caderneta da Criança. Aos 2 anos, não combinar duas palavras com sentido, como “mais água”, é motivo para conversar com o pediatra.
Também importa como a criança usa o que sabe: pede ajuda, responde, mostra algo, tenta dividir uma descoberta? Repetir músicas ou frases longas não significa, necessariamente, conseguir conversar. E atraso de fala sozinho não distingue autismo de dificuldades auditivas ou outros transtornos de linguagem.
Como ele explora os brinquedos?
Observe a variedade: empurra o carrinho, coloca objetos dentro de uma caixa, imita ações simples? Com o crescimento, surgem brincadeiras de representação, como alimentar uma boneca.
Girar rodas ou alinhar peças ocasionalmente faz parte da exploração. A preocupação aumenta quando o interesse fica muito concentrado em partes ou repetições, com pouca flexibilidade e poucas trocas sociais. Brincar de maneira diferente não é algo a punir.
Parece que ele só ouve quando quer?
O Guga não respondia quando eu o chamava, mas vinha ao ouvir um desenho de que gostava. Isso não prova audição normal nem que a criança esteja ignorando a mãe de propósito.
A avaliação auditiva é um passo importante e pode incluir audiometria, emissões otoacústicas e BERA/PEATE, conforme a idade e a possibilidade de colaboração. Ela pode acontecer junto à avaliação do desenvolvimento.
Texturas, alimentação e cocô também entram na consulta?
Sim. Recusar alimentos por textura, cheiro ou gosto, sofrer com barulhos ou buscar movimentos repetidos pode revelar particularidades sensoriais. Observe se isso impede refeições, passeios e brincadeiras.
Registre alimentos aceitos, fezes duras, esforço, dor e mudanças persistentes no intestino. A seletividade pode comprometer a nutrição; constipação e desconforto podem afetar sono e comportamento. Nem toda irritação é “do autismo”.
Pesquisas exploram conexões entre microbiota, metabolismo e inflamação, mas esses mecanismos não estão demonstrados como explicação de todos os sinais. Exames e suplementação devem responder a necessidades identificadas, sem restrições alimentares por conta própria.
Ele parou de fazer algo que já fazia. E agora?
Perder palavras, gestos ou interesse nas trocas precisa de avaliação. Não espere o próximo aniversário. O especialista considera a trajetória e decide sobre investigação genética, inclusive X frágil, e outras causas.
Suspeita de crises pode exigir investigação de epilepsia. Perda rápida acompanhada de convulsões, confusão ou movimentos novos incomuns exige atendimento urgente; encefalite autoimune é uma possibilidade em quadros específicos, não um rastreamento obrigatório.
As telas podem explicar tudo?
Excesso de telas pode ocupar o lugar de conversa, brincadeira e sono. Estudos encontram associações com dificuldades de desenvolvimento, mas não comprovam que telas causem autismo. Melhorar após reduzir o uso não prova que havia um “falso diagnóstico”.
Organize mais interação e menos uso passivo, mantendo a avaliação. O M-CHAT-R/F, usado entre 16 e 30 meses, ajuda no rastreamento, mas não fecha diagnóstico.
Por onde começar?
Leve caderneta, exemplos e dúvidas ao pediatra ou à UBS. Apoiar comunicação, saúde e autonomia pode começar enquanto a investigação acontece. Um passo de cada vez. Me acompanhe no Instagram: @ingrid.up.
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