Depois do diagnóstico, muitas perguntas chegam juntas: qual médico procurar, quais terapias começar, como pagar por tudo isso? Quero conversar com você, de mãe para mãe: não é preciso resolver a vida inteira hoje. Vamos organizar os próximos passos, olhando para o desenvolvimento e para a saúde do seu filho.
Vale a pena ter um plano de saúde?
Se couber no orçamento, um plano pode ajudar bastante. Ao longo da jornada, podem ser necessárias consultas, terapias e exames conforme a indicação clínica. Pelo SUS, a busca por atendimento pode ser desafiadora, com filas que variam conforme a região. A UBS é uma porta de entrada para organizar esse cuidado.
Antes de contratar, confira a rede disponível, as carências e a coparticipação. Pelas regras da ANS, planos regulamentados ou adaptados, com cobertura ambulatorial, devem cobrir sessões sem limite numérico com psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas, conforme prescrição. O STJ reafirmou essa proteção para pessoas com TEA em 2026. Isso não significa cobertura irrestrita de qualquer intervenção.
Quem deve acompanhar meu filho?
Um neuropediatra pode coordenar a avaliação do desenvolvimento, junto ao pediatra que acompanha a saúde geral. As terapias devem responder às necessidades da criança, com objetivos possíveis para a família.
Também considero importante um olhar integral: alimentação, sono, intestino e possíveis alterações nutricionais ou metabólicas. Buscar acompanhamento de alguém que de fato investigue é super importante. Infelizmente não são todos os médicos que vão ter um olhar mais integrativo. Então, muitas vezes vamos encontrar apoio nesse trabalho vindo de médicos integrativos, médicos da medicina do estilo de vida, nutrólogo, nutricionista… Idealmente buscar sempre profissionais especializados em autismo. Mas no fim do dia o grande investigador, maestro e orquestrador acaba sendo nós, pais e mães.
É preciso investigar X frágil e encefalite autoimune?
Sim, mas são situações diferentes. A síndrome do X frágil é uma condição genética que pode coexistir com o autismo. Converse sobre a investigação genética com o neuropediatra ou geneticista, incluindo o exame específico para X frágil; deficiência intelectual e histórico familiar ajudam a orientar essa avaliação.
Já a encefalite autoimune é outra condição a ser investigada pois encefalite autoimune pode imitar os sintomas do autismo na fase aguda, mas são problemas diferentes. Uma boa pista é quando há uma regressão abrupta (uma quebra drástica no desenvolvimento normal) e o desenvolvimento repentino de comportamentos muito associados ao autismo, como estereotipias, parar de fazer contato visual, regressão na fala e até crises com autolesões. Mudanças abruptas são o alerta para investigar imediatamente a encefalite autoimune.
Meu filho precisa fazer exames de sangue regularmente?
Precisa de acompanhamento regular. Quais exames fazer e com que frequência depende da alimentação, do crescimento, dos sintomas e dos medicamentos. Uma seletividade alimentar importante, por exemplo, pode justificar investigar deficiências nutricionais. Não existe um painel que garanta que “todos os marcadores estão bem”, nem um calendário de exames igual para todas as crianças. De toda sorte, acompanhar indicadores nutricionais, metabólicos e hormonais é importante para garantir que essa criança está bem, o que é importante para que possa desenvolver seu máximo potencial.
Por que cuidar da alimentação e do intestino desde o início?
Porque dor, constipação, refluxo e dificuldades alimentares merecem cuidado. Uma criança com desconforto pode dormir pior, ficar mais irritada e ter dificuldade para participar das atividades. Nem tudo deve ser atribuído automaticamente ao autismo.
Há pesquisas promissoras sobre relações entre microbiota intestinal, metabolismo, permeabilidade intestinal e processos inflamatórios, inclusive no sistema nervoso. Esse caminho merece atenção, mas ainda não permite concluir que essas alterações causem os sinais do autismo ou estejam presentes em toda criança.
Na prática, vale avaliar o funcionamento do intestino e construir uma alimentação nutritiva, respeitando as dificuldades sensoriais. Dietas restritivas, suplementos e tratamentos para “desinflamar” precisam de indicação individual. O objetivo é tratar problemas identificados e melhorar o bem-estar.
O que posso estimular em casa?
Eu daria atenção especial à autonomia: participar da alimentação, segurar o copo, usar a colher, lavar as mãos e ajudar a se vestir. Divida cada tarefa em pequenos passos e celebre as conquistas.
Para o banheiro, respeite os sinais de prontidão e investigue constipação ou dor. Evite pressão e punições. Apoios visuais e formas acessíveis de comunicação podem ajudar. Combine os objetivos com a equipe, preservando tempo para brincar e descansar.
E agora: existe espaço para esperança?
Existe, sim. Cuidar da nutrição, do sono, do intestino e de outras condições de saúde pode trazer conforto e favorecer a participação e a aprendizagem. Seu filho merece esse cuidado completo, com apoio ao seu jeito de se desenvolver.
Um passo de cada vez também é caminho. Para seguir essa conversa de mãe para mãe, me acompanhe no Instagram: @ingrid.up.